Súdito da Natureza
Se podemos dizer que existe algo perfeito no nosso mundo, é a Natureza. Todos os seres (com exceção do homem, às vezes) vivem harmonicamente no nosso planeta, desde os minerais até os animais. Não existe nada desequilibrado na Natureza e, quando há, ela própria se encarrega de colocar as coisas no lugar por meio de catástrofes ou problemas ambientais (que em sua maioria são causados por nós), assim como, por exemplo, o homem ficar doente ao desequilibrar o seu corpo com alimentos nada saudáveis.
Por que nós não podemos nos considerar “perfeitos” como a natureza? Pois animais, plantas e pedras não escolhem, eles simplesmente seguem um molde já perfeito que os guia naturalmente à harmonia. O animal não sabe o que é ordem nem desordem nem tampouco decide seguir uma em certos momentos e a outra em outros. A ordem que os guia já é estabelecida por algo — que aqui podemos chamar de Deus, por exemplo, ou de qualquer outra coisa que concorde com a nossa crença particular — e, por isso, a Natureza é perfeita e divina.
Já o homem, apesar de ser divino, não pode ser chamado de perfeito (neste momento), pois o que o caracteriza é a capacidade de escolher. Enquanto o animal vive completamente conectado à natureza e a seus efeitos, o homem precisa enfrentar dilemas o tempo inteiro e saber escolher entre o certo e o errado, entre o que eleva e o que rebaixa. Não existe “molde” a ser seguido: o que nos guia é a nossa própria consciência individual com o poder de escolher por si mesma.
O que isso deveria significar? Que, por termos recebido o livre arbítrio de presente, podemos simplesmente fazer o que bem entendermos e relativizar tudo? Bom, apesar de eu ter dito que não há molde para nós, humanos, da mesma forma que há para os animais e plantas, a verdade é que existe algo que pode se assemelhar a isso, mas com a diferença que não temos a obrigação de segui-lo, mas deveríamos. O que seria, então, esse “guia humano”?
Me servindo de alguns termos do hinduísmo, é difícil falar sobre isso sem comentar as leis do Karma e do Dharma. A primeira já é muito conhecida e reflete basicamente a 3ª lei de Newton: toda ação tem uma reação. Se pararmos para refletir e aplicar isso à conduta humana, chegamos à conclusão simples e óbvia de que devemos agir bem conosco e com os demais. Comer mal, dormir mal, tratar as pessoas mal e outras coisas do gênero geram consequências que te afastam do Dharma — a ordem universal. Agir contra essa ordem te faz gerar Karma que, em algum momento, vai te empurrar contra a sua vontade para o Dharma novamente. Imagine que estamos seguindo um caminho e que, ao desviarmos dele, encontramos tanta dor e sofrimento que somos obrigados a voltar para ele. O caminho é o Dharma e o desvio é o Karma.
Alguns podem refletir “eu como mal e nunca tive problemas” ou “eu sou ríspido e arrogante e isso me levou ao sucesso”. E nenhum dos dois está errado, de fato alguém pode errar a vida inteira e não sofrer (ou simplesmente não perceber) as consequências, mas o Karma não vai deixar de acumular e, em algum momento vai explodir, te obrigando agir corretamente. Porém, segundo o hinduísmo e o budismo, essa explosão pode acontecer daqui a 500 anos, em uma próxima encarnação. E repare que não se trata de algo trivial como no Cristianismo, em que um assassino pode chegar ao final de sua vida, se arrepender verdadeiramente e ir diretamente para o céu. Para as tradições orientais, o Karma é imparcial e não vai te fazer sofrer menos simplesmente por ter se arrependido. Porém, com um arrependimento genuíno, você mesmo vai encurtar o seu caminho de volta ao Dharma.
Então, o que custa tratar bem as pessoas e a si mesmo? Além dos inúmeros benefícios nítidos (os quais são meras consequências), você vai estar agindo conforme a natureza humana, ou melhor, divina, e vai garantir uma evolução agradável e com pouco sofrimento. Mas isso não significa que será necessariamente confortável, às vezes estamos em uma situação tão complexa que sofremos e temos dificuldade para seguir o que é correto, mas não devemos ter medo de ir além nesses momentos.
Mesmo que não acredite em reencarnação, é fácil visualizar como agir mal vai, na maioria das vezes, te gerar consequências ruins. Por exemplo, exagerar na feijoada pode te dar dor de barriga no dia seguinte, assim como maltratar alguém pode fazer a outra pessoa ficar magoada e, no final, isso pode ser descontado em você. Mas, da mesma forma, se enfiar em situações “esquisitas” achando que está fazendo o bem também pode gerar um Karma. Por isso é importante desenvolver a sua intuição para aprender qual é o momento certo de agir. E se você for cristão e não quer saber de Karma ou reencarnação, a lição é a mesma. Afinal, é muito tosco ver alguém que se diz seguidor de Deus agir de forma errada sabidamente e conscientemente pois, no final, crê que a “redenção” vai expurgá-lo de seus pecados que poderiam ter sido evitados muito tempo atrás. Como eu já disse, não custa nada ser bondoso, enquanto que a maldade sempre traz surpresas desagradáveis.
O Dharma é diferente para cada um. Uma pessoa pode se sentir realizada ao cultivar arroz e a outra ao gerir empresas milionárias. Por isso é comum sofrer quando estamos fazendo algo com o qual não sentimos conexão. Da mesma forma, uma pessoa pode fazer algo que não gosta, mas não sofre com isso e se realiza de outras formas. Resumidamente, tudo o que nos causa sofrimento significa que estamos nos distanciando da ordem universal. Caso não tenha reparado ainda, é fácil notar que o Dharma é a própria Natureza em seu sentido mais cósmico e universal. Os estoicos já diziam para agirmos conforme a natureza para alcançarmos a ataraxia ou paz de espírito.
Quando nos utilizamos da razão e agimos conforme a Natureza (ou Dharma) estamos simplesmente deixando que a ordem cósmica e natural do universo nos guie pela vida. Quando agimos contra a natureza e usamos a razão para isso, estamos gerando um desequilíbrio que sempre resulta em contradições internas e sofrimentos vindos “do além”. Agressividade, impulsividade, bestialidade, promiscuidade, etc. são todas qualidades que causam algum tipo de recompensa imediata mas que estão em total desconexão com o Dharma e, por isso, sempre causam algum tipo de sofrimento no longo prazo. Alguém poderia dizer que há pessoas com esses comportamentos que vivem bem, mas bastaria uma vivência próxima para enxergar o vazio em seu cotidiano. Isso ocorre pois uma característica própria do homem — o ser intermediário entre o céu e a terra — é vontade de viver conforme o superior. Quando essa vontade não é saciada por meio da boa ação e do bom convívio, o sofrimento aparece. Por mais que a razão seja a principal característica do homem, nossa evolução aponta para o sublime, assim como a dos animais aponta para a razão ou o intelecto.
Pense comigo: o que nós conseguimos perceber nos animais que nós humanos fazemos mil vezes melhor? Agir racionalmente, claro. Apesar de o joão-de-barro fazer uma casa de barro para se proteger, nós conseguimos fazer isso de forma muito mais complexa e variada. O mesmo para o papagaio e o macaco que conseguem aprender (com a nossa ajuda) a falar e a agir “inteligentemente”. Agora, qual capacidade nós temos em potência que aponta para o que poderia ser nossa “próxima etapa evolutiva”? Qual é aquela sensação interna que todos nós sentimos — mesmo que uns mais e outros menos — como se fosse um dever a ser cumprido (um “chamado”) e o certo a se fazer?
Se pensarmos bem, o livre arbítrio (ou seja, a capacidade de escolher entre o certo e o errado) é uma característica própria do homem, assim como a razão. O que isso revela sobre nós? Ora, um ponto intermediário! Em todos os níveis de existência, estamos em um eterno conflito entre o bem e o mal (ou o superior e o inferior, espiritual e material, interno e externo, dentre outros exemplos de dualidade, não sendo necessariamente correspondências exatas entre si). O humano é o ser que faz a ponte (ou é a própria ponte) entre o divino e o mundano. Afinal, se não fosse assim, por que sempre nos preocupamos com ideias do bem, da beleza e das virtudes durante toda a história da humanidade? De onde surgiu essa nossa preocupação? A razão e o intelecto seriam suficientes para isso? Seriamos capazes de distinguir entre o belo e o feio apenas com a razão? Ou há algo a mais dentro de nós que consegue compreender, de maneira inata, o que é a beleza, a bondade, a coragem, etc.?
Bom, descobrir isso não é tarefa fácil. Mas não creio que seja difícil perceber que essas ideias não parecem vir diretamente de um raciocínio ou de uma elaboração intelectual da mente, e sim de algo que possuímos de maneira natural, algo que nenhum outro ser vivo na terra consegue conceber.
Com esses parágrafos expositivos de o que poderia ser a natureza humana e o nosso percurso, se torna cada vez mais claro que o agir conforme esses princípios significa propriamente agir conforme a Natureza ou conforme o Dharma, que reflete a sua ordem de maneira diferente para cada ser no nosso universo.
Quero aproveitar para falar de Jesus, que é um ótimo exemplo próximo da nossa realidade. Jesus, assim como, por exemplo, Buda, foi um homem puro que não gerava karma. Ou seja, não era ator de ações que gerassem alguma reação karmica. Essa tarefa é dificílima, pois significa não reagir a provocações, não se vingar de malfeitores, não desejar o mal ao próximo (sim, pensamento gera karma), não querer prejudicar alguém, independente do mal que tenha sido feito a você. Nós não conseguimos fazer isso pois ainda somos muito apegados à nossa natureza animal visceral, a qual busca orgulho, prazeres, honras e benefícios próprios. Esta está sendo deixada para trás. Já a natureza humana é aquela que une, que busca conciliar as diferenças, que busca amar incondicionalmente, assim como Jesus e Buda fizeram, e é aquela para onde estamos caminhando. Alguém pode ver a atual situação do mundo e rir do que acabou de ser dito, mas devemos nos recordar que podem haver micro ciclos negativos dentro de macro ciclos positivos e vice-versa.
Se você, leitor, entendeu e abriu-se para o que foi dito, consegue perceber como a humanidade, hoje, perde tempo com o que em nada agrega ao nosso progresso. Perdemos tempo odiando os outros por política, sendo que em pouco tempo morreremos e o mundo mudará completamente. Perdemos tempo consumindo conteúdos que apenas excitam nosso lado mais visceral, assim como perdemos tempo tentando negar a nós mesmos, esquecendo que, desde os princípios mais remotos, somos os únicos responsáveis pelo que somos e pelo que temos hoje.
Então, pare de confrontar a vida, pare de negar a realidade e pare de se boicotar. A correnteza violenta da vida sempre nos leva para um doce lago paradisíaco. O mais cedo aprendemos a surfar por esse rio e a desviarmos das pedras com o que há de melhor dentro de nós, melhor será a jornada e mais fácil perceberemos que a felicidade está no movimento, e não no destino.